então é assim, não muito bem como eu imaginava. mas o que eu imaginava nunca foi muito levado em consideração. já devia ter me acostumado.
vinte dias já tinham se passado. nem ele, nem ela esperavam algum contato tão breve. pelo menos um mês de férias ainda os separava – ou pelo menos era o que ela pensava. acontece que, não afeito a desistir, ele resolveu fazer alguma coisa. tudo bem, não era nada novo. nenhum GAMECHANGER se me permitem os estrangeirismos. but then again, silenciar não era seu forte. foi, nervoso, até o botequim mais próximo, não pela cerveja de sempre, e sim atrás de um cartão de orelhão. era fácil imaginar o que se seguiria: mais uma rejeição, mas apesar das últimas semanas em quase desespero, ele ainda acreditava.
acreditando, foi até o telefone público e discou o número dela. sabia de cor óbvio. pouco importava o celular desfigurado, figura dele próprio. resolveu soar bem humorado. alegre, até. fazer uma galhofa.
- hello, sidney…
- q
- ah, tu não curte panico?
- ein?
- ok. só adivinha quem é…
- rodri? – vira pro lado, para a amiga/confidente – “putz é o rodri” que responde “caramba não achei que ele ia ligar mais…”
- hah! ainda não fui completamente esquecido. então…
- que estranho tu ligar…
- nem tanto……… tu tá ocupada? – já estava acostumado a grandes silêncios no telefone.
- hm.. não não pode falar.
- ah. que bom. mas na verdade to ligando pra que a gente possa conversar ao vivo. nem tanto conversar. quero mais é entregar o teu livro que tá comigo. atar os últimos nós. – obviamente não era só isso que ele pretendia mas ainda assim, não custa tentar.
- hmmm. pois é… o fitz né? claaaro o que tu tava pensando? quer deixar aqui qualquer hora dessas?
- hahah. eu até faria isso mas umas semanas atrás tu deve lembrar que eu acabei comprando aquele negócio do peixe urbano pro sushi e tal…
- será que é uma boa?
- não sei. de verdade. quero conversar sobre o tempo. bobagens contigo. só te ver e tal…
- acho que não faz mal…….. a gente ir como amigos…… – hesitante como o inferno
- claro claro. amigos…. hahaha
- ah.
- tudo bem então? sexta feira passo aí. dia 29?
- ok.
- beijo, tu ainda é a favor de beijo sempre no fim de cada ligação apesar de ser eu né… hahahaha
- beijo. tchau.
ao passo que a amiga surpresa sem entender direito e talvez até um pouco irritada ‘wtf foi isso?’ ‘sei lá.’ ‘vai desmarcar em cima da hora? que que tu vai fazer?’ ‘sei lá.’
passam os dias. chega a tal sexta. ele vai lá e se apruma pra tentar fazer ela lembrar pq gostava dele ela se arruma pra mostrar que tá bem sem ele.
com o carro na esquina uma msg: to aqui. ela vem. simples, linda, leve. como sempre. dói um pouco mas segura o sorriso.
- like the old times. ligando aqui da frente. esperando sentado na esquina.
- nada a ver com os old times. ainda não é verão.
- haha. entra aí – e vai lá correndo abrir a porta pra ela apesar disso parecer forçado.
claro, tem um embrulho qualquer uma flor ali em cima do banco. ela fica olhando sem saber o que fazer. como ele não dá bola pra isso e vai entrando no lado do motorista ela pega as coisas e senta.
- queisso?
- presente. não sei se tu viu mas fui pra montevideo semana passada. aquela viagem que eu ia ter feito no dia dos namors mas o vulcão não deixou…
- sei sei.
- então trouxe um presente de lá. acho que esse não vai ser tão ruim quanto os outros mas ainda assim… to nervoso. hah.
- eu gostei dos outros – e a voz vai sumindo enquanto abre o pacote – aaaaah muito legal
- eu sei que não tá mais tão frio assim, só que sei lá tu tem sempre um desses contigo e nem tem mais eu pra te esquentar…
- ….
- desculpa não devia ter dito isso.
- não. capaz. não tem problema.
conversando sobre o tempo em montevideo e porto alegre e qualquer coisa insignificante o suficiente vão pro sushi. no sushi ele, de novo, admite sua ignorancia e ressalta sua incapacidade para estar com ela, tão refinada, mas dessa vez sem preocupações. é da vida, ele pensa.
- afinal, o que tu queria?
- não sei. jantar. conversar. não posso querer mais que isso.
- li o amarelo…
- ah! achei que ia ler. espero que não tenha ficado braba. embora tu já tenha ficado braba comigo por motivos menores.
- não não. acho que tu te queimou só.
- isso não importa.
- heh. acho que tu tem razão.
- tu leu o outro post?
- no amarelo?
- não.
- no blog com o douglas?
- é.
- não. pq?
- haha. tava estranhando. tá tudo saindo meio como eu tinha escrito.
- tu escreveu sobre isso?
- mais ou menos. um script… de como eu achava que as coisas deviam ser…
- isso tá errado rodrigo
- eu sei. eu sei. – e sei mesmo
- vamos falar de outras coisas
- acho válido.
realmente, agora, não consigo pensar em nenhuma small talk.
hora de ir embora toda aquela coisa. ainda com esperança de mudar algo depois de uma noite sem stress. vai que ela tenha lembrado de quando as coisas eram simples e dos motivos que ela tinha pra gostar de mim, ele pensa. e sem pensar vai chegando perto dela e indo mais devagar na chegada da casa dela. meio sem querer, talvez por reflexo, se beijam. ele pensa “sim, sabia que isso nao tinha mudado” ela pensa “caramba, não lembrava que era assim” enquanto morde o lábio dele e o puxa e naquele momento em que tudo fica pra trás, inclusive o futuro, eles se permitem.
dali a pouco, as coisas precisam ficar mais claras:
- pelo o que eu entendi no twitter e no amarelo tu ia viajar agora mas não deu pq do processo?
- é. mais ou menos isso…
- mais ou menos pq?
- pq eu vou igual. preciso tentar de esquecer, embora já saiba que não vou conseguir.
- vai sim.
- não vou. mas de qualquer maneira. queria que a gente fizesse juz aos bons momentos juntos antes de eu ir.
- então vamo ficar junto até segunda – óbvio que ela não falaria isso, nem nessa nem em nenhuma outra situação.
- queria que tu ficasse comigo pelo menos essa noite. conversando até cair no sono, que nem quando a gente viu roman holiday ou breakfast at tiffany’s
- é amanhã eu não preciso trabalhar.
- então vamo lá. vamos descobrir alguma coisa essa noite. não que isso seja uma coisa fácil.. mas não custa tentar.
- ok. tua companhia tá boa hoje.
- pois é. queria que tu lembrasse pq tu queria ficar comigo in the first place. mas não vai fazer diferença….
sei lá não sei como terminar isso mas logo tem mais partes do script